JÉSSICA MOTTA ENTREVISTA COMPLETA (10/05/2025, Shopping Nova América).
Os trechos a seguir foram extraídos da entrevista realizada por Vinicius, doutorando.
VP - Ah, e a entrevista com a Natália foi na beira da praia de São Conrado.
JM - Nossa, eu tinha que ter ido ver.
VP - Mas teve muito ruído. O ruído me lascou, na praia.
JM - O ruído, eu acho que na praia não tem como. A Natália é uma querida. Foi muito leve entrevistar ela e a outra moça também, da banda.
VP - A Camila.
JM - A Camila, nossa. Elas foram incríveis. Foi uma entrevista muito complexa e muito profunda. A gente conversou sobre muita coisa. Tiveram alguns alertas de gatilho também na live. Até uma live que eu tive que meio que censurar um pouquinho algumas coisas. Mas a gente conseguiu levar. Porque são mulheres dentro do underground. A gente acabou compartilhando coisas que a gente já passou e tudo mais. Mas assim, foi. A gente conseguiu levar muito bem. Ficou muito bom. Nossa. Com mulheres foi uma das entrevistas mais profundas que eu já fiz. Elas são incríveis mesmo. É um show que eu tô louca pra ver de novo. Muito bom. Muito bom mesmo.
VP - E saiu uma notícia legal, de que que eles conseguiram um contrato com a gravadora Deck, né?
JM - A Deck. Eu tô muito feliz por eles. Merecem muito. É muito legal. A galera do protagonismo preto tá conseguindo uma visibilidade muito grande. A gente tá saindo daquela coisa do “Você é muito necessário" para “Você merece muito isso aqui”. A gente tem que estar em todos os lugares, mesmo. A gente tem que sair... Isso é bom, mas assim, essa coisa do “Você é necessário” cansa. Eu posso dizer que eu senti muito isso nesses dois anos que eu fiz o Toca Underground. “Você é muito necessário”. É muito legal. As pessoas virem falar com você, reconhecer o seu trabalho.
Mas tem uma hora que isso cansa. A gente não quer ser só necessário. A gente quer ocupar os lugares que são nossos. Porque o rock, o metal, ele veio de pessoas pretas. E eu falo muito sobre essa coisa da saúde mental. Com quem vem conversar comigo em eventos... Eu falo, gente, quer dar um tempo? Quer continuar? Cuide-se sempre. Cuida da sua cabeça. Porque a nossa cabeça desencadeia traumas, desencadeia doenças pro nosso corpo. Tá tudo aqui. Quando a gente cuida do nosso orí, da nossa cabeça, tudo começa a fluir... Ah, eu quero dar um tempo. Eu tô dando um tempo. Eu tô quase um ano e meio sem fazer entrevista. Isso tá sendo muito bom pra mim. Tem gente que pergunta, quando é que você vai voltar? Eu não sei. Mas, assim, eu tô sempre compartilhando... “eu não tô fazendo. Mas, ó, esse aqui, o fulano tá fazendo, a fulana tá fazendo”. Apoie outras mídias independentes. Porque a gente não quer ser só necessário. A gente quer ocupar os lugares. Porque todo... um produtor chega a uma banda, através de uma mídia independente. E aí eu vejo pouco reconhecimento nisso. Sabe? Eu vejo muito pouco reconhecimento nisso. Aí, ah, a gente vai dar um acesso ali, mas tá, e aí? Sabe? Você tem que ficar naquele “e aí?” Entende? Fica muito nesse contraponto. Eu sempre vou bater nessa tecla de que as mídias independentes, elas precisam de uma visibilidade... e por parte das bandas, também. Porque eu vejo muito, particularmente, vou ser aberta aqui pra você. Eu nem levava adiante. Vinha alguma banda, assim, só no interesse de se divulgar. E você via. Eu tinha que fazer um estudo de campo sobre essa banda. A banda não publicava nada. Spotify, Deezer... a banda não publicava nada. Não tinha um vínculo, uma conexão com os fãs deles. Eu via lá um monte de coisa perdida. Então como é que eu vou divulgar você se nem você acredita no seu trabalho? Você tá me entendendo? Então, assim. Ah, poxa, mas a gente quer. Mas, tá. E aí, você? O que você tá fazendo por si mesmo? Entende? Não adianta nada só você mandar uma mensagem pronta pra mim. Sinceramente, eu não vou nem... se eu vejo que você não tá movimentando o que é seu por direito, como é que eu vou fazer isso? Qual credibilidade que você passa para uma mídia independente indicar o seu trabalho, às vezes pro produtor? Você tá me entendendo? Às vezes uma banda só precisa de um levante, como já aconteceu com bandas até de mulher no vocal. [...]
VP - Eu acho que você tocou num ponto interessante, desse cuidado com a saúde mental e tudo, né? Quem me falou sobre isso, também, foi a Lelê. Da Afroheadbanger.
JM - Olha, sem palavras pra ela. Ela é incrível.
VP - E ela tava me falando o seguinte: que ela tava levando aquele canal ali sozinha, né? E o que a gente vê é só a ponta do iceberg. Vê o vídeo já pronto, aí ela falou, caramba, o trabalho que tem com ajuste de som, de luz, de planejar o roteiro, não sei o quê. E daí ela falou que tava sendo muito massacrante... você vê que, devido a essa coisa toda, desses algoritmos de hoje, não sei o quê, né? Não está chegando nas pessoas, velho. Então ela começou a... aí foi quando ela resolveu passar mais pra mídia física, né? Ela tá fazendo à moda antiga, de fanzine, e tal. Isso é interessante. Aí eu queria saber de você também, assim, enquanto você estava fazendo mais vídeos pro canal, você também percebeu, assim, essa trabalheira e a dificuldade que é pra...
JM - É algo bem complexo, que é como eu te falei, uma pesquisa de campo que você faz. Eu cheguei a entrevistar, acho que, quase 80 bandas em um ano e meio. Então, assim, às vezes eu fazia duas entrevistas por semana. Então, assim, foi um material que eu consegui coletar ali, assim, de grande valia. E isso consome muito a gente, sabe? Porque, principalmente, igual a Lelê, que você citou, né? Da Afroheadbanger. Ela é incrível. Ela já me chamou pra um bate
papo. Nossa, eu não tenho palavras pra ela. Ela é incrível demais. E a gente levar o nosso trabalho ali, a gente sozinha, é muito massacrante. A gente quer, né? Trabalhar no coletivo, a gente quer. Só que, assim, como eu, como a Lelê, a gente tem os nossos problemas. A gente tem o nosso cotidiano, né? Ela tem a vida dela. Eu acredito que ela seja professora de inglês, né? Então, assim, isso demanda muito tempo. Eu trabalho em setor administrativo de uma empresa de tecnologia. Então, assim, isso demanda muito tempo da minha vida. Tem outros setores também. E, assim, às vezes a gente não vê um retorno, né? E pra gente amar tanto o que a gente faz, quem ama se decepciona. Então a gente acaba se decepcionando com determinadas coisas. Então ali, sabe, acaba ruindo alguma coisinha que a gente se anima de fazer e a gente já fica, poxa, a gente já sabe o que vai acontecer, sabe? A gente começa a se resguardar. Porque isso começa a acabar com a nossa saúde mental, entende?
VP - Ela estava me explicando que, devido a essa arquitetura de hoje, dessas redes e tudo, pra ter mais engajamento, pra ter mais visibilidade, é preciso que a pessoa fique produzindo, produzindo, produzindo... e é aí que a gente vê hoje em dia tanto material de 15 segundos, né? Que a galera faz só pra lançar todo dia. E o que vocês faziam é muito mais profundo, com mais tempo, com mais conteúdo...
JM - Tem muita gente... na época que eu estava saindo, né? Tinha muita gente desistindo de fazer canal, assim, né? Produzindo conteúdo. Eu tinha até comentado isso nos meus stories uma vez. Eu estava abismada com a quantidade de gente que fazia um conteúdo tão bom e começou a se desanimar por conta do algoritmo, sabe? O algoritmo não estava entregando. E assim, a gente que depende, a gente que trabalha no orgânico, né? Isso acaba frustrando. Não que o outro trabalho da pessoa de 15 segundos, 30 segundos seja ruim, não é isso, né? São trabalhos muito legais que a gente vê por aí. Às vezes até engraçados, né? A galera trabalha muito com essa coisa de comédia. Eu morro de rir. E acaba divulgando as bandas. Pô, legal, isso é muito maneiro. Mas assim, as coisas vão mudando, né? Aí a gente... não que a gente se perde, mas assim, a gente tem que se adaptar. E algumas pessoas não têm meio que tempo, não têm disponibilidade. Então, assim, eu respeito muito o meu tempo. Eu respeito a minha saúde, a minha paz. Eu não posso ficar ali todo dia me disponibilizando... a gente, o que eu vou criar de 15 segundos. É, não dá. Assim, a minha rotina é muito complicada.
VP - Pra isso tem que ter uma dedicação quase que exclusiva.
JM - Exatamente. Teve uma época que eu comecei a gravar alguns stories. Eu tinha que gravar o dia inteiro. Mas eu tinha disponibilidade de fazer isso. Aí eu ia publicando ao longo da semana. Legal, mas tinha algumas coisas que muita gente me passava ao longo da semana. “Poxa, Jéssica, pode fazer isso?” Eram bandas legais. Assim, bandas que estavam ali na ativa. Como é que eu ia dizer não pra uma banda que às vezes me fortaleceu, também? E eu sempre acreditei no apoio mútuo. Eu ia lá, parava o que eu tava fazendo. Eu ia lá e fazia uma divulgação. Entende? Mas isso vai começando... você entra ali... vai desencadeando outras coisas. Alguns ciclos que, assim, eu achei importante fechar o canal. Ainda tá lá. Tá em hiato. Como eu falo pra todo mundo que me pergunta. Tem muito material. Eu falo, use mesmo. Tem muita informação ali. Usem pra vocês. Mas é aquilo. Eu não me vejo, hoje em dia, fazendo uma coisinha ou outra... como uma galera que se adapta tanto. Essa galera mais nova que tá vindo agora se adapta tanto... E eu vou te falar uma outra coisa. Tem muita produção de conteúdo. Não é ruim. É maravilhoso! Porque o intuito sempre foi esse. Chega muita coisa pra mim. Mas assim, eu falo, às vezes não dá. Eu tô me ausentando de eventos. Pela minha saúde mental. Entende? Eu tô respeitando o meu tempo. Agora eu tô voltando aí aos pouquinhos, mas no meu tempo. Sabe? Eu preciso respeitar isso senão eu vou adoecer. Entende? Essa situação da Lelê, assim, eu super apoio ela. Eu sei exatamente o que ela tá passando. Como tantas outras pessoas que produziam conteúdos mais complexos passaram.
VP - Ela tá pra... disse ela que vai me enviar. o material, lá, de fanzine.
JM - Ai, que legal.
VP - Eu queria, assim, se você pudesse, explicar um pouquinho da sua trajetória, né? Trajetória de vida e onde ela se toca com o som pesado, e tal.
JM - Claro. Acho que como todo roqueiro carioca, a gente começa no Garage.
VP - Só um parênteses. Só um parênteses. Agora você quebrou uma hipótese que eu tinha. Eu tinha uma noção, assim, que quase todos nós começamos por conta de bandas mainstream. A pessoa começou o Iron, Metallica... comigo, por exemplo, foi Iron e Metallica. E aí depois, assim, começa a conhecer a galera, e aí... mas você já começou no undergroundzão, mesmo?
JM - Então. A gente sempre vai nesse Iron, Metallica, Black Sabbath, também. Eu comecei, assim, ouvindo... eu sempre fui criada no meio do samba, né? Gosto até hoje. Adoro uma escola de samba. Mas... eu sempre ouvi, assim, teve algum tio que me apresentou alguma coisa. Eu comecei com Dire Straits. Aí eu ouvia. Aí depois a gente vai para a adolescência, a gente começa a ouvir... o Iron, Metallica, Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin. Aí fui para onde? Para o Garage. Alguém me levou para o Garage. Aí ali eu comecei a ouvir mais metal. Eu escutava mais essas bandas, assim, e eu fui para aquele só metal, metal, metal.
Bandas de new metal também. Que as pessoas não consideram metal. Hoje em dia tem essa coisa louca aí. Mas é, gente. Deixa o povo lá, tá? É... aí eu fui começando. Aí o pessoal vê, né? Aí ali no começo... Ah, vamos fazer uma entrevista e tudo mais. Quando eu fui ver, eu já... eu estava bem, assim... as bandas já vinham entrando em contato, né? Às vezes eu fazia algum contato e tudo mais. Uma das bandas que eu... que mais me marcou que eu fiz contato foi a banda Devotos. Que eu gosto bastante. E aceitarem de cara, né? O Canni aceitar de cara. Eu falei... gente, eu achava que essas pessoas eram tão inacessíveis. Porque tem pessoas que colocam seus ídolos como inacessíveis. Igual Black Pantera, que eu entrevistei também. Eu falei pro Rodrigo. Rodrigo, poxa. Estou iniciando um canal. Mas ele... “Pô, quando? Você quer hoje?” Falei... “Não, hoje não”. Marcamos. Foi assim, sabe? E foi muito legal fazer esse contato com bandas que hoje em dia, assim... são mega reconhecidas dentro do Brasil. A Crexpo, né? Por exemplo. Eu fiz também com Ed Chaves. Com as meninas da Punho de Mahin... São... foram coisas, assim, muito legais que eu achava que eu nunca ia conseguir. Falei... gente, o acesso eu tenho aí. Então eu tenho que começar a fazer uma pesquisa de campo mais aprofundadas. Aí eu fazia minhas... Aí, né? Eu fazia aquelas resenhas de show. Fazia uma coisa mais... mais sutis para as pessoas começarem a perceber. Assim, que eu... Uma coisa também: resenha de show... eu sempre vi um linguajar muito complexo. Eu falei... eu quero facilitar um pouco pras pessoas terem... a pessoa tá ali dentro do ônibus, tá dentro do metrô... terem o prazer de ler minha resenha. Ela não vai parar lá no chat GPT, significado da palavra tal. Falei... eu quero que ela tenha aquela sensação de estar ali no show comigo. E é uma coisa que, assim... eu lamento muito que as resenhas estejam se perdendo, sabe? Eu tenho percebido muito isso. E é outra coisa também que, assim... te exige demais. Porque isso... eu tive um bloqueio. Eu tive um bloqueio pra fazer resenhas, né? Eu simplesmente não conseguia mais escrever. Então eu tive que ir pra outras áreas da minha vida. Aí, quando eu comecei a ver que já tava me apertando... aí eu falei... não, vou dar um tempo, né? Aí que veio essa fase... depois das entrevistas até que eu fiz pra outros canais. Eu falei... vou dar um tempinho pra mim. Estou aí até hoje. Mas sempre indico. Sempre assim, quando alguém me procura... Eu, ó... fulano tá fazendo. Algum trabalho específico que eu sei que... que alguém vai ser especialista da área... Fulano tá fazendo. Então, vamos lá. Faz aí com fulano que, ó... é qualidade (indicando canais e mídias independentes).
VP- Você não pode dar o tempo que eu não dei. Porque eu também tive uns problemas, com a banda... eu acho que o último show foi em 2014, mais ou menos.
JM - É 11 anos aí! Vamos ver o que será do Toca Underground. Olha, foi uma fase, assim, da minha vida que... eu nunca tive tanto contato, tanta conexão. Vou te falar, assim... eu nunca pensei. Eu sempre fui muito... antissocial. Eu vou ser sincera. Eu ia ali no evento e ficava ali, assim... toda mais retraída. E chegar pessoas pra falar com você... gente, é muito bom. As pessoas, nossa... seu trabalho é bom, seu trabalho... e tá aí, um momento que me marcou demais. Eu estava no show do Krisiun, que é uma das bandas que eu mais gosto, assim, né? Que tá aí na atualidade. Tá na atividade, fazendo turnê pelo mundo. E eu fui cumprimentar o Alex. Só que, assim, eu só ia estender o braço pra ele... “Você é a Jéssica Motta? Você faz aquelas entrevistas? Ah, seu trabalho é muito legal”.
VP - Caraca, que maneiro, né?
JM - E ele me seguia, eu não sabia. Caraca! Aí eu... nossa... aí eu... eu não sabia o que eu falava. Ele tirou uma foto. Eu fiquei emocionada com aquele momento, assim. Uma pessoa que eu sempre gostei, desde muito nova. Eu sempre admirei e com esse meu trabalho... Sabe? Muito... aquilo ali, pra mim, assim, foi... Nossa! Eu não tenho nem como descrever. Porque foi incrível. De verdade. Olha, assim, foi um momento... eu não precisei nem me apresentar, que ele já sabia que eu era. Aí... mantemos contato ainda. Ele é uma pessoa muito... muito legal, assim. Muito receptiva com os fãs, também, né? Uma bandaça. E também, assim, outra pessoa muito receptiva. Muito... se você chegar pra conversar com ele, ele vai conversar com você. Muito, muito, assim. É muito como você vê essa galera, assim. E eu achava que... eu sempre achava que tinha uma barreira ali. Barreira essa que... que não existe. Que as pessoas, às vezes, colocam... Mas se você chegar lá e começar a fazer acontecer... é o que eu sempre falo. Se você quer, estuda. É sempre bom você ter o estudo ali de base. E começa. Você faz ali, faz aqui. Daqui a pouco, você vai ver pessoas, assim, que você nunca imaginou... Vindo falar do seu trabalho contigo. Isso é muito legal, sabe? Muito legal. Muito.
VP - E você falou uma coisa interessante, também, quando você buscou fazer resenhas, menos rebuscadas, e tal. Esse é um debate que a galera tem trazido muito, sobre uma certa dificuldade de popularização do estilo, né? Da cena chegar na galera mais trabalhadora, né? Mais de chão. Às vezes, a cena é uma pouquinho elitizada, né? E aí, eu tenho visto uma galera tentando fazer esse movimento contrário, né? Tipo, a banda Utsu. É que eles têm procurado, assim, fazer shows em lugares não comuns. Não fica ali só no Garage, no Heavy’n Beer, mas, buscam outros bairros, outras coisas. O Marcelo, do Cara de Porco. Eu já o vi falando também, assim, que “não vamos ficar só lá para o Centro do Rio, vamos trazer aqui para a Zona Oeste”, que é a área dele, e tal. E aí, como você vê, assim, essa coisa, essa dualidade, algumas correntes levando a coisa mais para o lado elitizado... e eu já até digo, mesmo, uma coisa que eu não curto muito é, às vezes, esse Angraverso, né? Que os caras fizeram... “pô, vamos fazer o Dia do Metal”, aí, as bandas que
tocaram no Dia do Metal eram as bandas irmãs, ali. E depois vieram cuspindo marimbondo, tipo, “as pessoas não vão, as pessoas não vão”...
JM - Aí a gente entra naquela coisa, assim, que eu te falei. É... as pessoas, mesmo, ali, no angraverso que você falou, se fecham ali numa bolha e se tornam inacessíveis. Eu que estava de fora há muitos anos, para mim, era uma coisa ali, era bolinha, né? Eram muitas panelinhas, né? Vamos falar assim. E tudo se fecha. Aí fulano, quando vai ter o evento de fulano, já sabe quem vai tocar e já sabe quem é, entendeu? Aí acaba se tornando uma bolha. Eu comecei a fazer resenha por causa disso. Eu fiz uma resenha assim, rasgando o verbo, porque isso me irritava. Porque, assim, se fecha para outras bandas que estão começando agora, entendeu? E eu acho muito importante levar o metal, o rock, o hardcore e o punk para outras... para outros bairros. Porque, assim, vamos dizer, em Santa Cruz a gente já sabe as bandas que tocam, em Campo Grande a gente já sabe, em Bangu, né? Gente, aquela cena ali existe, podem ser poucas pessoas, mas façam um festivalzinho maior, juntem mais bandas. Teve um festival lá que teve o Rato do Rio Revival. Tava difícil de andar lá no meio. Fez, assim, fechou. Acho que foi em 2023 isso. As outras edições eu não sei, infelizmente não pude ir.
VP - Foi a que fechou com a Ereboros? Não é isso, acho que foi ano passado.
JM - Teve Lac e eu acho que teve a Ereboros, também, mas não fechou com eles não. Acho que fechou com a Cara de Porco, mesmo. E veio banda até de fora do Rio de Janeiro. Aí, assim, é muito legal a gente valorizar as bandas que tem aqui no Rio, né? Mas, assim, tem eventos que fazem só pra banda aqui do Rio, mas tem muitas bandas. Tem produtora que vão pelo gosto do público abrindo votação do tipo "quais bandas você quer ver tocando" e isso é muito legal também, vejo muito isso. A gente vai lá, seleciona, vota. Eu compartilho com as pessoas, gente, vota aí pra ver a sua banda tocando e tudo mais. Você quer estar no festival bom? E esse tipo de festival ir pra outros bairros. “Ah, mas não vai dar lucro”, gente.... é underground. Se eu fizer alguma coisa pra dar lucro, eu tô ferrada. Entendeu? A gente faz porque a gente gosta. Dentro da minha carreira eu tô tentando me especializar em outras coisas. Mas, assim, eu sei que dentro do underground, é assim, infelizmente. Bandas que estão em ascensão, pô, legal. Que prosperem muito. Mas, underground é um pouco... é literalmente mais embaixo.
A gente faz porque a gente gosta. E tem que tocar em Bangu, Campo Grande, outros bairros existem. Eu não sei qual é esse preconceito com a Zona Oeste, alguns lugares da Zona Norte. Entende? Aí vira uma bolha. Ah, só tocam no centro do Rio. Ah, porque muita gente vai pra lá. Mas também tem muita gente de outros bairros. Tem gente que, pô, leva duas horas e meia de uma condução pra tá lá. Entendeu? Porque só tem rock lá. Tem em outros bairros também.
VP - E aí tem o outro extremo. O extremo do extremo. Até no som. Você já leu o livro do Campoy, aquele “Luz sobre as trevas”. Fala do underground e tal.
JM - Me fala um pouco sobre.
VP - Esse cara é do sul. Ele fez um trabalho também de antropologia no qual ele pegou bandas de metal extremo... aí ele entrevista principalmente bandas de metal extremo. Assim, pelo jeito que ele fala, parece que o movimento é coeso pra caramba.
Pelas entrevistas que ele mostra, a visão de underground que os caras têm é tipo... sabe? É o nosso mundo aqui. É a nossa parada. E que está em uma posição praticamente bélica em relação ao mainstream. Pela galera que ele entrevista, assim... Krisiun é poser. Krisiun é poser. “O que é isso? Vai querer ter exposição e tal”. É muito pesado. É muito pesado. E em algumas partes eu notei como... ele escreveu isso em 2008? Ou publicou em 2012? Não sei, mas assim... você vê ele falando sobre os eventos, trabalho de campo e tal, aí descrevendo as pessoas, descrevendo os góticos... ele separa o metal extremo em Grind/Splatter, Thrash, Death e Black. Mas aí ele descrevendo as pessoas e tal, eles com os acessórios, e não sei o quê. Os cabelos. Aí quando ele fala de cabelos, você já vê que ele está falando de um tipo de cabelo. E suas companheiras. Suas companheiras assim assadas, ou seja, é um evento de homen, no qual vão suas companheiras. Como se elas não estivessem ali nos mesmos termos que os homens, vendo as bandas. Mas você vê assim que não é... não estou falando que o cara é maior sacana, pelo o que ele está escrevendo. Não, é automático, entendeu? Ele vai no fluxo, porque o foco dele é outra parada. Ele não tem um tipo de reflexão um pouco mais aprofundada, de questão, sei lá, racial ou de gênero, ou outra coisa. Mas enfim, ele coloca uma cena onde, para essa galera que ele entrevista, underground é aquilo ali. O metal extremo é o que faz o underground, por excelência. O underground que merece ser chamado de Underground, entendeu? Eu achei muito louco. Eu vou usar a obra dele para fazer uma contraposição. Nesses eventos você lidou com muita de metal extremo, né... imagino que não seja essa a tua visão, levando em conta a galera com quem você teve contato.
JM - Não. A gente almeja um ambiente que acolha todo mundo que está lá e que se sintam seguros. E é como você falou, já se torna algo habitual. Porque são os costumes do escritor, dessa pessoa. Não sei quais são as vivências dele, mas aí a gente entra naquela coisa que, só isso aqui que é o underground? A banda independente, a banda que já está sendo financiada, é o quê? A gente entra muito nesses contrapontos de definições do que é o underground. Se é um movimento propriamente dito da galera que está ali fazendo acontecer de alguma forma, nem que seja no off, que está ali divulgando banda, divulgando álbum. O que é? São visões diferentes. Mas eu acredito que todo mundo está fazendo acontecer de alguma forma. Óbvio. É como eu te falei. Um movimento sem abraçar pessoas, sem acolher as minorias
LGBT, pessoas trans, pessoas pretas torna-se algo vazio. Não dá. Eu não consigo ver um movimento independente se o underground não abraça minorias. É só uma galera privilegiada que está ali falando de alguma coisa que alguém pode fazer, que ele acha que alguém tem que agir daquela forma. É um pouco complicado. Pode crer.
VP - Desde que você começou a frequentar eventos e tal, de lá para cá, você considera que teve alguma transformação positiva, de mais referências, mais diversidade, talvez, na cena do Rio, por exemplo?
JM - A cena em si ainda é muito dominada por homens. Eu não vejo mais um monte de cara, e tem as meninas lá acompanhando. Não, eu vejo menina no mosh. Tem mosh das meninas. Eu vejo uma cena muito mais abrangente, mais inclusiva. Isso sim. A gente ali, um movimento, eu posso falar aqui pelo Rio de Janeiro. O último evento que eu fui foi daquelas 50 bandas. Foi muito legal. Vi banda com uma mulher trans. Muito bacana. Gostei, me identifiquei bastante. Isso é as pessoas ocuparem lugares. Se você não quiser falar sobre, é um direito seu. Cada um sabe do seu íntimo. Se quiser falar também, se quiser se expressar. Mas é bom respeitar! Underground é expressão. É você se sentir bem, ali. Até da sua forma quietinha, ali, está tudo bem. Você se sente à vontade e seguro ali dentro. Não como eu me sentia lá no começo, eu falava, gente, estou aqui... eu não me sentia representada. Eu me sentia toda excluída em um lugar, mas eu gostava da música. Hoje em dia eu consigo me sentir parte daquilo ali, mesmo não estando na ativa com o meu canal. É muito legal você se sentir parte daquilo ali. Fazer acontecer, sabe? Eu, como uma mulher preta, estou ali no meio. Eu me sinto parte daquilo. Se fosse há muitos anos, eu era uma mulher, que estava com um cara, sozinha ali no meu canto, de braço cruzado. Ah, inclusive. Eu e a Natália (Punho) conversamos sobre isso. A gente já passou pela mesma coisa. A gente sempre era aquela menina que estava ali ocupada com alguém ou estava sozinha, que a gente não se sentia parte daquilo. A gente não via outras mulheres pretas ali em cima do palco. Outras mulheres trans em cima do palco, sabe? Drag também... eu entrevistei a Midori Kido, que é lá da Bahia. É uma drag icônica que tem a banda dela de Metal. E ela também sentia a mesma coisa. A gente estava lá, ela toda montada, como ela gosta de se vestir, mas ela ficava ali toda reclusa. Outras situações de gatilho também que nós conversamos, foi uma das primeiras lives que eu fiz e foi muito legal trazer essas pessoas e trazer esses projetos à luz, sabe? São pessoas que precisam estar dentro underground. Essas
pessoas precisam se sentir incluídas, sabe? E essas pessoas existem, gente. A gente tem que dar voz, sabe? A gente tem que se dar voz. Eu sentia muita necessidade disso antes de criar o canal. Então eu falei, cara, eu preciso ser essa voz.
VP - Podes crer, eu entrevistei o camarada Black.Alt, e aí, quando ele falou assim... “o que o Black Pantera significa pra mim, né? Eu pensei, caraca, era o que eu queria, era o que eu precisava, você não sabe o quanto me transformou...”, foi interessante. Você não acha que esse tenha sido um dos pontos que (a gente sabe que é complicado pra caramba essas tecnologias de hoje em dia, o quanto são usadas para o mal, mas que também possuem potencial para o bem) podem ter dado uma uma melhorada, uma nos debates sobre essas questões, com essas redes sociais, que fazem a informação circular mais?
JM - De acordo.
VP - É difícil pra caramba, mas... eu vou ter que fazer a qualificação agora... vamos parar aqui, ou você quer... finalizar?
JM - Você quer finalizar? O que você quer fazer?
VP - Você quer passar uma mensagem final para os fãs, aí?
JM - Primeiro de tudo, eu quero te agradecer. Eu que te agradeço, né? Depois de um ano e alguns meses aí, eu tô com o underground tá em hiato, né? Acho que eu não vou conseguir encerrar esse ciclo da minha vida, porque foi algo muito marcante. Até pelas coisas que eu acredito. Quero te agradecer..
Até por esse reconhecimento, né? Do meu trabalho. E... apoiem as medidas independentes. Isso eu vou frisar sempre. Eu posso estar velhinha, lá. Apoiem. Porque são eles que fazem essa engrenagem chamada underground fluir e fazer acontecer. Porque muitas, muitas bandas são conhecidas e trazidas à luz através deles. Então, assim... valorizem. Valorizem mesmo. Eu quero te agradecer mais uma vez por isso. Obrigada mesmo, assim, é muito legal. O meu trabalho tá em hiato e mesmo assim ser reconhecido, sabe? E ser usado pra estudo. Isso que eu admiro ainda mais, assim. Duas coisas que eu admiro muito. Eu ter entrevistado professores... Virem falar comigo, querendo entrevista para suas bandas. E pessoas assim, igual o Baltha que eu te falei, né? Da Motim Underground, que é um jornalista. Ele ter usado o meu trabalho como TCC. Vocês vindo falar comigo pra usar o meu trabalho, assim, pra uma fonte de estudo. Cara, isso sim pra mim é uma realização. Sério mesmo. E... Obrigada. De verdade, assim. Eu sou muito agradecida pelo Toca Underground. Né? Respeitando o meu tempo. E respeitem o tempo de vocês. Respeitem mesmo. Porque a nossa saúde mental, cuidar da nossa cabeça, do nosso orí, é essencial pra tudo funcionar na nossa vida. Por mais que a gente ame o que a gente faz. Isso pode massacrar a gente um dia. Sabe? Então cuide da saúde mental de vocês, beleza? Se cuidem, por favor. Eu quero ver sua banda na ativa, Vinicius! Obrigada, mesmo.
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Bandas citadas:
Mídias independentes citadas:
Afroheadbanger (Lelê atualmente publica na Lukumi)
Motim Underground
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